quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dia após dia...

... o poeta acorda pela manhã, e em sua mente confusa pelo repouso, o labor já se manifesta, quando um olhar vadio pela janela reproduz cores e sons em uma partitura finamente emoldurada, repleta de beleza simples, pura.
Em devaneio livremente construído, um cambalear trôpego até o banheiro torna-se um vagar épico por praias nas paredes, palavras em brochuras e carrancas nas prateleiras.
A primeira urinada (obrigatória) do dia converte-se em memórias escatológicas de arrebentação em fluidez idílica, espuma borbulhante de onde novas Afrodites emergeriam, luxuriosas e vibrantes, infiéis e irresistíveis, a olhos de deuses e homens.
Vestir-se, então! Iguala-se a experiências virginais onde linho e seda convertem-se em pele macia, o farfalhar de pêlos em suspiros deslumbrados de gozo jamais experimentado ou esquecido.
Um último olhar para o espelho, e este diz: "Ninguém te conhece tão bem como eu!". Cúmplice de si mesmo, satisfeito com saber tão particular e clandestino, o poeta sai, pronto para tudo.
A fantástica rotina se esvai, vítima de imaginação poderosa que a violenta e transforma em contos e rimas e linhas demais para tão pouco espaço como é o dia, donas de interesse profano, quase sacro, até o retorno à casa que se chama: Lar.
Já banhado (outra experiência única em multiverso sempre em mudança), o poeta, em seu caminho para o quarto, vê-se no espelho, e a ele repete a frase que ouvira de manhã.
(E não consegue dormir, com pena de tão solitário reflexo.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Antíteses próximas

De tristezas e incertezas nos pautamos;
em alegrias e esperanças que virão,
sem poder buscar, de fato, o que será.

Buscamos apenas, em sonhos,
em beleza, em loucura,
novas vidas, que não as nossas

(nem de outros, entretanto)

Em infinitos pontos, que se limitam
neles mesmos, corremos, comemos,
fazemos, fodemos, em diante.

Não há retorno. Nem para trás,
nem para nós. Apenas há o que deixaremos,
não o que deixamos.

(ainda estamos aqui, afinal)