Muitos diriam que esta história, por ser como é, começa no fim. Afinal, esta é a história de um velho teimoso.
Como todos os velhos teimosos, ele insistia em não fazer o que ou como lhe diziam. E por isso, a história dele começa assim.
Um velho teimoso, que morava sem outras pessoas (o que é diferente, frisemos, de morar sozinho), teimava em não ficar no passado. Ele vivia para o futuro.
Claro, o passado visitava. E o velho, apesar de teimoso, era gentil (não que uma coisa exclua a outra, mas enfim.) Memórias que o chamavam de volta eram recebidas com um olhar sorridente. "Até a próxima", ele sempre dizia, em despedida. Seu olhar, então, parava de sorrir e começava a contemplar. O futuro, em busca da memória que retornaria. Outra vez.
Ele nunca viu, a propósito. Memórias fugazes sempre o pegavam de surpresa. Afinal, memórias têm caprichos, são brincalhonas, como crianças. Toda memória, como todos sabem, é jovem. Por mais antigo que seja o tempo em que ela nasceu pela primeira vez, a cada vez que ela volta, é uma recém-nascida, reencarnada dos momentos que lhe deram a luz e das paixões que lhe fizeram o parto.
O velho, nas horas vagas, colecionava memórias. Ele preferia, na maior parte do tempo, brincar (como uma memória), aqui, e ali, ao criar. Teorias. Conexões. Hipóteses. Miragens.
Ele gostava de jogar sua imaginação para o mundo como um jardineiro que rega plantas no jardim, e acha uma criança brincando na água. (se o jardim é dele, ou não, não importa). O mundo ao redor, em retorno, lhe escapava, às vezes, mas sempre olhando de volta, na periferia da visão, esperando a próxima enxurrada.
Brincando com o mundo, o velho via o arco-íris do dia sem chuva. Passageiro, artificial, nunca tão vasto quanto o natural, fato. Mas bonito à sua própria maneira.
Novos e antigos mundos nasciam, na imaginação do velho. Alguns, chatos como seu emprego poderia ter sido; outros como seu emprego foi, chato ou não. Ainda havia alguns (muitos) terríveis, como a lembrança de um estupro pode ser; outros (tantos) doces como sorvete e bolhas de sabão. Todos (todos) tão reais quanto ele, como eu, como você.
Como memórias brincalhonas, colecionadas por velhos teimosos, parecidas com crianças imaginadas entre plantas de jardim.