O desconhecido surgiu como uma explosão. Seu recado, escrito em todos os jornais, escrito em sangue em uma parede. O sangue de seu primeiro alvo, pois "vítima" era uma palavra que ninguém que se considerava minimamente civilizado usaria para descrever o morto.
Seu recado, lia-se, escarlate: "NÃO TOLERO".
Logo, nas manchetes bombásticas, a figura assassina era batizada: "Intolerante", era chamado. A cada semana, ganhava mais espaço, pois a cada semana, um novo corpo servia para lhe prover de tinta para seu recado simples.
"NÃO TOLERO".
Apesar de vago, o recado deixou pouco espaço para especulação. Ficou claro com presteza o que (ele? ela?) não tolerava.
Intolerantes.
(Ele? Ela?) começou por cima, em uma cidade muito populosa de um país onde havia crescimento econômico e retrocesso ideológico. Líderes religiosos fanáticos e fundamentalistas, políticos influentes e reacionários, grandes autores de discursos de ódio e "liberdade de expressão" que só servia a quem tinha alguém a atacar.
Um a um eles começaram a morrer. Antes mesmo que pudesse se atribuir um padrão, "Intolerante" matou gays e "feminazis". Torcedores de futebol, músicos e atores. O público suspirou aliviado em seu medo. Aparentemente, intolerância estava em toda parte, em todo grupo. Brancos, negros, homens, mulheres, pardos, trans, héteros e homos... todos se entreolhavam pensando: "Serei eu em seguida"?
"Intolerante" gerou medo. Muitos se questionavam se seu julgamento era justo, ou se era fruto de loucura. A questão é que não havia como deter sua mensagem, que a cada semana, encontrava uma parede, e sangue onde escrever nela.
"NÃO TOLERO".
Eventualmente, um fim. O dia chegou em que "Intolerante" viu-se sobre uma montanha de corpos, e sua mensagem tingia todo o horizonte de carmesim. O dia em que seu próprio peito virou tela de seu próprio sangue, quando viu-se sem companhia em sua intolerância onilateral.
Mas nesse dia, será que havia alguém mais?