segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Toda a vida

"Segue essa rua toda a vida."
Apenas uma frase inócua.
Pessoas falavam, oitenta anos depois,
de um velho de pele ressecada,
olhos fundos em arregalar esgazeado,
que balbuciava essa frase sem cessar,
em voz arranhada,
caminhando trôpego pela calçada semi-pronta.

Décadas após, o pavimento já rachado,
e rumores ocasionais mencionavam
uma sombra, vista apenas na periferia
do olhar, e de uma voz que vinha de longe,
como eco a virar a esquina mais afastada.

O hoje nos separa por séculos da rua sem asfalto,
onde a frase foi ouvida por aquele rapaz.
Não se fala, nem em rumores, dele, de homem,
de velho, de morto ou de sombra. Mas às vezes
(o jornaleiro jura), quando lhe perguntam aonde ir,
ele responde, simplesmente: "Ah, segue essa rua
a vida toda."

Como se em lamento, a rua emite um vento,
murmurando a vida
que ali seguiu...