Um(a) viajante vagava.
No vácuo escuro do espaço entre luas, mundos e sóis, sua nave/mãe/companheira o(a) guiava seguro(a) em sua cabine/útero/abraço.
Devaneando sobre um fragmento interessante que caía a metade da velocidade da luz, perto dali (apenas um ou dois mil quilômetros, como medimos), Viajante captou algo na periferia de seus sentidos.
Apurou a atenção. Era um som/sinal, dentre tantos e tantos que permeavam o espaço entre as estrelas, planetas e satélites. Mas este carregava algo diferente. Não era a harmonia plácida da poeira estelar nos ventos solares. Não era o retumbar de grandes asteróides se chocando, ou a chicotada estendida do efeito estilingue de um sólido em um campo gravitacional.
Era orgânico. Doloroso.
A nave/mãe/companheira atendeu o pedido de Viajante, traçou uma rota próxima à fonte do som/sinal gerado por diminutas pedras radioativas. Era como ela, mas gigantesca: uma nave/mãe/companheira, cujos tripulantes/filhos/parceiros não decolavam/pariam/partiam.
Cálculos rápidos feitos por Viajante revelaram bilhões. Que, de forma que pasmava ambos no espaço, sumiam/surgiam o tempo todo. Ciclos de vida orgânica se aniquilando/produzindo caoticamente, sem coesão.
E o tom doloroso parecia emanar de todos os bilhões.
Viajante não compreendia/processava. O padrão não era natural. Havia espaço vital. Havia recursos para todos. Mas a sequencia surgimento-extermínio-substituição persistia. Não era competição por sobrevivência. Qual era o motivo/propósito/razão do ciclo?
Os melhores não eram necessariamente os selecionados... logo, Evolução também não se encaixava naquele padrão. Pelo contrário, para Viajante (e sua nave/mãe/companheira) nenhuma diferença notável se manifestava/revelava. Bilhões de seres diminutos em uma gigantesca cabine/útero/estufa quasi-esférica, repleta de nutrientes, só cooperavam quando uma fração de espaço vital estava prestes a ser destruída/ocupada por outros.
Decidindo ter uma perspectiva mais próxima, Viajante teve seu pedido realizado. A nave/mãe/companheira ejetou/pariu/liberou para o mundo sua carga/cria/parceria... e quando bilhões de tons se distinguiram, tudo ficou mais claro.
Os tripulantes/filhos/parceiros daquela nave/mãe/companheira mundial não tinham uma voz. Cada um gritava para se fazer ouvir, e cada um se sufocava na cacofonia de outros ao redor... compartilhando barulho, contribuindo para confusão.
E assim, ficaram presos. Em uma histeria coletiva de solidão. Dolorosa.
Viajante retornou.
No colo/cabine/útero de sua nave/mãe/companheira, sob proteção da sombra da única lua do terceiro planeta de um sol anão amarelo, Viajante chorou.