A Terra ao avesso era um planeta luminoso.
Impossível. Estranho.
Sua camada externa brilhava como ouro em meio à desolação vazia do espaço.
Pois o que estava em contato com o vácuo era metal líquido, fervente ao ponto de brilhar.
Abaixo (ou rumo ao centro, como puristas preferem), um manto de minérios em ebulição, que ocasionalmente irrompiam para dentro, rompendo a camada sólida que formava a crosta interna do mundo oco.
Bem lá dentro, no centro do planeta, continentes e mares circundavam um núcleo atmosférico.
Rico em flora e fauna, com alta tecnologia, esse povo diferia de nós em alguns pontos chave:
1- eles enxergavam através do espectro que a escuridão refletia, e por isso sabiam que a luz era nociva a seus olhos. Sabiam também que escuro não é ausência de luz, apenas outra forma, que se estendia pelo infinito, com suas próprias partículas e comprimentos de ondas. Sabiam também que era mais seguro enxergar pela escuridão. Afinal, ninguém fica cego sem ser exposto a luz excessiva. Logo, a luz era perigosa. Todos sabiam disso.
2- eles eram um só povo; quando seu horizonte se curva para cima, ele não separa dois povos, apenas mostra onde eles estão. E se o seu povo enxerga outro no céu, então para eles, o seu povo também é celestial. É melhor dar um bom exemplo... não há, no fim das contas, onde se esconder.
3- esse povo, como seu planeta, se desenvolveu para dentro; por fora eles metaforicamente brilhavam (nunca literalmente... isso seria perigoso para os outros... a luz cega, lembra?), e por dentro, eram cheios de vida, conhecendo e olhando para si mesmos, sem explorar o que estava fora. Cada um outro era um horizonte, um potencial habitante do céu (e o céu era onde todos moravam, para um outro alguém). E cada um era protegido do vácuo e do frio por intenso calor humano.