quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Névoas na encruzilhada

Uma jovem grávida buscava orientação.

Sua gravidez não tinha sido uma escolha consciente, mas o resultado de uma série de fatores que se estendem por demais, e que culminaram naquilo. Pressão de outros (você tem que ser mãe/quero um netinho), fantasias impostas (ser mãe é tudo de bom), e condenação (se tivesse fechado as pernas, não teria acontecido) se combinam entre esses fatores.

Ela buscou um sacerdote de uma religião predominante.

Ele lhe disse que a criança era um milagre nascido do pecado, e que deveria ser mantida, pois assim era a vontade de uma deidade, e lhe mostrou um livro, muito antigo, para corroborar suas palavras. Não importou a ele se haveria condições futuras de se criar aquela criança. Pois se houvesse fé verdadeira, a dita deidade proveria. Caso não houvesse fé o bastante, o castigo divino seria justo, pois a dita divindade escrevia certo por linhas tortas.

Confusa, a jovem com medo de ser punida, buscou a ajuda de um ativista.

Este lhe disse que se a gravidez era indesejada, e ela não tinha como prover pela criança, ela deveria abortar. Afinal, as estatísticas mostram orfanatos como lugares de poucos recursos e investimentos, mostram muitas crianças de famílias como a dela (longe do topo da escala social) acabando nas ruas e/ou na criminalidade, eventualmente mortas de fome ou por violência. Seria mais humano deixar que essa se fosse antes de se tornar uma de fato, afinal, ainda não era consciente de si mesma (a gravidez estava ainda muito recente).

Desanimada, a jovem percebeu que ambos os discursos eram apaixonados demais. Buscou na internet, e encontrou um programa de computador.

Este, lógica e friamente, lhe disse que se o que ela buscava era simplesmente ser mãe. que tivesse a criança. Que se não buscava, que abortasse. A escolha era dela, e apenas crenças discrepantes a confundiam. Se ela, no entanto, corria risco com aquela gravidez, somente ela poderia decidir se iria arriscar a própria vida em prol de uma criança que a partir dali poderia estar sozinha no mundo.

Em desespero, ela foi encontrada por um sábio.

Este lhe disse que não podia ajudar. A decisão era somente dela, e tudo o que ofereceu foi silêncio onde ela poderia encontrar a própria voz para se decidir. Onde ela pudesse pesar o quanto ela iria sacrificar por aquela criança, e se iria. Ele lhe mostrou que, no final, as vozes que gritavam sobre ela, dirigidas a ela e umas às outras, esqueceram uma coisa; o aborto é um sintoma.

A jovem sabia que nenhum dos lados queria que o aborto acontecesse. Ninguém queria evitar crianças de virem ao mundo. Mas neste tempo, neste mundo, o aborto era um mal necessário. Quando crianças nascem tão freqüentemente apenas para morrer de fome, quando elas são produtos de estupros e violação psicológica, é cruel pensar em se parir uma criança para tratá-la como fardo... e que às vezes precisamos escolher entre salvar uma pessoa ou outra. Entre a mãe e a criança, entre nenhum futuro e uma esperança tênue. Entre a vida que é e a vida que pode ou não vir a ser.

O sábio assentiu. Ele voltou à sua batalha pessoal de buscar prever a gravidez indesejada, o abandono de crianças e a falta de informação aos pais... a verdadeira causa dessa batalha tão triste.

Sabendo que tinha algum apoio, afinal, mas sozinha em sua decisão, a jovem se decidiu. O que ela decidiu, cabe apenas a ela.

Mas ela espera, sinceramente, ter sido a última a ser forçada a decidir.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fazendo miçanga.

A matemática é perfeita.

Lógica. Impessoal. Imparcial.

Impiedosa.

Leis de Mercado são auto reguladas...

Bens comuns a serem distribuídos...

Esquerda vs Direita.

A matemática não se importa.

A economia segue, implacável.

Lembre-se, você... lembre-se do que estraga a matemática.

Do que arruína a lógica.

Do que sempre toma partido, mesmo, quando não toma.

Lembre-se de pessoas.

A lógica dita que um deve contribuir.

Matematicamente, velhos e crianças estão em débito.

Logicamente, não há porque mantê-los.

Imparcialmente, não há nada pessoal. Apenas bons negócios.

Crianças são débito a ser resgatado. Investimento.

Velhos são bens datados. Reciclagem.

Pessoas... todas.

Pessoas... todos.

Compaixão não é matemática.

Empatia não é matemática.

A matemática é perfeita. Abstrata. Intocável.

Pessoas são falhas.

Mas estão logo ali, ao alcance de um abraço.

De um afago.

De um beijo.

Lembre-se das pessoas.

A matemática não vive, não sofre, não precisa.

Pessoas morrem, sofrem, e querem.

Se citamos matemática, e esquecemos das pessoas,

Adoramos o perfeito inventado.

Esquecemos o que somos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

In Memoriam

Em um minuto de silêncio dedicado

às historias nunca contadas,

ouço, e enumero, tantas

anotações feitas em guardanapos

(aqueles, manchados nas pontas),

"e se"s de conversas de amigos

que nunca chegam a uma conclusão

(no máximo um dar de ombros

e um "enfim" e um "pois é").

Entro de luto por um breve

período, e as histórias do que

poderia, do que nunca será, e

outras, tantas outras, me buscam,

Eu ouço. Saudade também escuta,

bem aqui do meu lado. Com o tempo,

as histórias partem, para lugar nenhum.

As memórias não. Lembrança

não deixa os contos de lado.

Tributo pago.

sábado, 3 de setembro de 2016

Caminhos

Um viajante, conversando consigo mesmo, um dia viu-se perdido.

A estrada não existia mais. Sua trilha estava fosca.

"Eu chamarei um pássaro para me guiar."

"Por quê?" perguntou-se.

"Porque esse pássaro não será comum... ele não terá olhos, e por isso, não confiará no que se vê. E ao não ver o caminho, saberá por onde ir."

E nada mais foi dito. O pássaro veio, e o guiou, sem olhos, por várias cidades e lugares e tempos e mundos.

Um dia, ele não conseguiu achar o pássaro.

"Onde está meu pássaro-guia?" ele se perguntou.

"No lugar certo, oras" respondeu "Não foi essa sua função? Ir ao lugar certo?"

"Mas..." ponderou "mas se ele está no lugar certo... e não está aqui comigo... estou eu no caminho errado?"

"Assim parece."

Balançando a cabeça, o viajante retomou sua viagem, um sorriso no rosto.

"Nããão... que tolice a minha... certo e errado são só pontos de vista. Eu devo estar no lugar certo, e o ele só está em um lugar diferente."

Sombrio, ele contrapôs:

"Mas, se assim é... por onde você andou todo esse tempo em que acreditava estar no lugar certo, guiado por um cego?"

Entre um passo e outro, ele hesitou. Voltou a andar.

Mas seu sorriso ficou para trás.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Até

Em uma floresta, uma raposa se encolhia na floresta, no frio.

Havia um caçador atrás dela. Sempre.

Nesse dia, já de noite, a raposa viu o caçador.

E ela sumiu.

O caçador estava sempre lá. Ele sabia que a raposa não podia escapar sempre.

E a raposa também sabia disso.

O que ela sabia mais que o caçador era que ela não tinha medo dele.

Ela sentia falta da floresta.

Do cheiro da chuva.

Do sabor da presa.

Do sol nos pelos.

Do cheiro de outras raposas.

O caçador não imaginava isso. Como poderia a raposa sentir falta do que ela já tinha?

Mas ela sentia. Não se importava com a dor do tiro. Ela já tinha sentido dor antes.

Não se preocupava com sua pele sendo esfolada e vendida. Ela não estaria viva para se importar.

Ela sentia falta do que tinha.

Um dia, ela sabia, a bala viria.

Até esse dia, ela aproveitava a floresta.

Ela corria. Ela comia. Ela dormia. Ela sonhava.

Até aquele dia, ela sorria.

Até mais.

domingo, 31 de julho de 2016

Desce?

VÉI.

Que foi?

Deus é um elevador!

Mas hein?!

É... tava explicando o início do Universo pro meu filho... saca, Big Crunch e Big Bang?

Sei.

Então... ele não entendia. Aí eu disse que o Big Crunch era tipo o último elevador na hora de entrada... saca, quando todo mundo tenta pegar e se entope lá dentro?

U-hum.

Então. O Big Bang é tip quando o elevador tá cheio assim, e alguém peida, e todo mundo sai correndo sem olhar para trás...

Hm. Certo...

Pois então. Se as partículas do universo são as pessoas, e o elemento comum é o elevador, então Deus é o elevador!

Não procede.

Não?

Não.

Por que?

Deus pode ser o peido...

Você vai para o inferno...

(Dando de ombros) De elevador?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Luto de onça.

Um coração colorido
bate, e pulsa,
sangue dolorido,
cheio de repulsa.

Um poeta triste,
esperançoso,
que insiste,
tão teimoso,

Na raça, de humanos,
aquela que  traça,
sem ter planos,
mais de uma desgraça,

Na feia exceção,
que é sempre regrada,
e por ter definição,
nunca é usada.

Cores e fontes,
formatos, palavras,
pedem, aos montes,
para serem usadas,

Se corta, se esquece,
se perde, se corta,
elimina, enfraquece,
enfeita, entorta.

E um suspiro se ouve,
em meio a um ronco,
"Ei, o que houve?"
pergunta o bronco,

"Nada", responde,
o poeta, absorto,
isolado, onde,
achou seu conforto...

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um conto que se conta.

Em um reino, havia um bardo.

Ele estudou, durante anos, em uma torre alta, cinzenta, sem segurança.

Em sua mente, ele estava lá de volta.

O bardo vivia entre mundos. Em cada passo de cada dia, ele via histórias. Elas falavam com ele, e traziam sorrisos aos seus lábios ou lágrimas a seus olhos.

O sorriso ele expunha, embora muitos o vissem como sério.

As lágrimas ele não se permitia mostrar, e por isso, às vezes, elas se recusavam, por despeito, de vir a ele.

Mas isso não vem ao caso.

No alto daquela torre, em sua mente, o bardo tinha uma visão que até então, e até mesmo então, era imaginada apenas.

Ele via a si mesmo, 38 metros abaixo.

O baque de sua queda ainda ecoava nos ouvidos daqueles que testemunharam.

Por um momento, ele estudou curioso o padrão que seu sangue e miolos desenhavam no chão ao redor. Pena que ninguém notaria. Ali estava uma fórmula matemática que a muito eludia várias gerações de cientistas.

Irônico, e apropriado. Um sentido extra a uma morte que tinha um propósito... uma mensagem a todo o reino, que outros bardos, em suas canções, em seus poemas, em suas crônicas haviam de gritar, em outros reinos, de outros reinos, até que este reino colorido de mentiras se tornasse ciente do que todos ao redor sabiam.

O bardo, em sua mente, olhou para o céu. Um erro.

Ao fazê-lo, ele caiu... para o lado de cima.

Rumo a um sorriso em um par de olhos bem conhecido, de uma vampira a quem ele dera seu amor.

O brilho do sol de uma praia que ele visitou poucas vezes chamou sua atenção. Era vermelho... mas de um tom que não era de sangue.

Ao redor dele, como pássaros em revoada, livros batiam suas capas e páginas, implorando para serem lidos uma vez ou de novo... as letras caíram deles como penas agitadas, e os ventos traziam música como um redemoinho.

Uma mulher que era três, acompanhada de três homens que eram um, vieram até o bardo, e disseram a ele que ele tinha vindo até eles e elas.

Sete chakras se abriram e uma canção explodiu. Um novo universo nasceu, e levou o bardo pela mão.

Havia muitas histórias a serem contadas ainda. Muitas a serem testemunhadas, e apenas ele o faria. Pois outros tinham suas próprias histórias.

O bardo olhou para baixo. Seu corpo morto depois do passo que veio da torre ainda estava lá. Mas essa era uma das histórias que ele contaria.

Não era a última ainda.

Clio sorria para o bardo, e o bardo, tristemente, sorriu de volta. Mas prometeu a ela um sorriso verdadeiro logo, e satisfeita, ela aceitou.

Nove irmãs dançaram. Memória e Vitória haviam salvo uma vida.

Histórias futuras, ainda não nascidas, suspiraram.

Histórias passadas, ainda aqui, se abraçaram.

Uma história, ainda não finda, continua.

sábado, 9 de abril de 2016

Um

...E veio a mim,
um ser, terrível
em sua majestade.

Apavorado,
admirado,
pedi:
“Não me machuque”

E o ser disse:
“Não o farei.”

“Quem é você?”
perguntei.

“Dizer a verdade,
o machucaria,
e não o farei.”
o ser respondeu.

Refleti, e perguntei:
“O que é você?”

Um sorriso surgiu.
“Eu sou o círculo invisível.”
foi a resposta.

E eu sorria.
Pois eu era parte do círculo,
que invisível,
não divide.

E fiz perguntas.
E respondi.
E me admirei,
em minha majestade.

terça-feira, 29 de março de 2016

Astronauta

Um(a) viajante vagava.
No vácuo escuro do espaço entre luas, mundos e sóis, sua nave/mãe/companheira o(a) guiava seguro(a) em sua cabine/útero/abraço.
Devaneando sobre um fragmento interessante que caía a metade da velocidade da luz, perto dali (apenas um ou dois mil quilômetros, como medimos), Viajante captou algo na periferia de seus sentidos.
Apurou a atenção. Era um som/sinal, dentre tantos e tantos que permeavam o espaço entre as estrelas, planetas e satélites. Mas este carregava algo diferente. Não era a harmonia plácida da poeira estelar nos ventos solares. Não era o retumbar de grandes asteróides se chocando, ou a chicotada estendida do efeito estilingue de um sólido em um campo gravitacional.
Era orgânico. Doloroso.
A nave/mãe/companheira atendeu o pedido de Viajante, traçou uma rota próxima à fonte do som/sinal gerado por diminutas pedras radioativas. Era como ela, mas gigantesca: uma nave/mãe/companheira, cujos tripulantes/filhos/parceiros não decolavam/pariam/partiam.
Cálculos rápidos feitos por Viajante revelaram bilhões. Que, de forma que pasmava ambos no espaço, sumiam/surgiam o tempo todo. Ciclos de vida orgânica se aniquilando/produzindo caoticamente, sem coesão.
E o tom doloroso parecia emanar de todos os bilhões.
Viajante não compreendia/processava. O padrão não era natural. Havia espaço vital. Havia recursos para todos. Mas a sequencia surgimento-extermínio-substituição persistia. Não era competição por sobrevivência. Qual era o motivo/propósito/razão do ciclo?
Os melhores não eram necessariamente os selecionados... logo, Evolução também não se encaixava naquele padrão. Pelo contrário, para Viajante (e sua nave/mãe/companheira) nenhuma diferença notável se manifestava/revelava. Bilhões de seres diminutos em uma gigantesca cabine/útero/estufa quasi-esférica, repleta de nutrientes, só cooperavam quando uma fração de espaço vital estava prestes a ser  destruída/ocupada por outros.
Decidindo ter uma perspectiva mais próxima, Viajante teve seu pedido realizado. A nave/mãe/companheira ejetou/pariu/liberou para o mundo sua carga/cria/parceria... e quando bilhões de tons se distinguiram, tudo ficou mais claro.
Os tripulantes/filhos/parceiros daquela nave/mãe/companheira mundial não tinham uma voz. Cada um gritava para se fazer ouvir, e cada um se sufocava na cacofonia de outros ao redor... compartilhando barulho, contribuindo para confusão.
E assim, ficaram presos. Em uma histeria coletiva de solidão. Dolorosa.
Viajante retornou.
No colo/cabine/útero de sua nave/mãe/companheira, sob proteção da sombra da única lua do terceiro planeta de um sol anão amarelo, Viajante chorou.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Futura mente

Let tomorrow be
what we will never see,
but, through beautiful ruse
changes hopeless impossible
into goals and dreams, 
and more of what can 
not be the same
 as yesterday.

Let today be a memory,
when tomorrow, that
never is, comes…
a memory of grey glory
and defeats endless,
of that one kiss that
was not, of that climax
só much better than
any other.

Let a dream be a dream,
and a ruse no more, but
a rose, in a garden of torn
memories and anxieties…
hopeless, perhaps, but

beautiful, no less.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Dia de verão

Multidão que pega um qualquer,
fagocitado,
andando sem linha,
suado,
por ruas que sufocam
(árvores da infância,
onde estão que não
em sonhos, refrescando
memórias de ventos que vinham
e vêm,
e frutas que caem),
o solitário.

Sol inclemente,
olhos cerrados,
testa franzida,
carros,
buzinas,
um alguém,
xinga a outro,
por um elevador um instante
atrasado:
imprecações que ecoam
em corredor vazio.

(Nostalgia,
eis você,
dourando tempos
cinzentos,
tornando o azul
odioso,
e nuvens hostis
em graça.)
Retorno
assim.