sábado, 3 de setembro de 2016

Caminhos

Um viajante, conversando consigo mesmo, um dia viu-se perdido.

A estrada não existia mais. Sua trilha estava fosca.

"Eu chamarei um pássaro para me guiar."

"Por quê?" perguntou-se.

"Porque esse pássaro não será comum... ele não terá olhos, e por isso, não confiará no que se vê. E ao não ver o caminho, saberá por onde ir."

E nada mais foi dito. O pássaro veio, e o guiou, sem olhos, por várias cidades e lugares e tempos e mundos.

Um dia, ele não conseguiu achar o pássaro.

"Onde está meu pássaro-guia?" ele se perguntou.

"No lugar certo, oras" respondeu "Não foi essa sua função? Ir ao lugar certo?"

"Mas..." ponderou "mas se ele está no lugar certo... e não está aqui comigo... estou eu no caminho errado?"

"Assim parece."

Balançando a cabeça, o viajante retomou sua viagem, um sorriso no rosto.

"Nããão... que tolice a minha... certo e errado são só pontos de vista. Eu devo estar no lugar certo, e o ele só está em um lugar diferente."

Sombrio, ele contrapôs:

"Mas, se assim é... por onde você andou todo esse tempo em que acreditava estar no lugar certo, guiado por um cego?"

Entre um passo e outro, ele hesitou. Voltou a andar.

Mas seu sorriso ficou para trás.