Um viajante, conversando consigo mesmo, um dia viu-se perdido.
A estrada não existia mais. Sua trilha estava fosca.
"Eu chamarei um pássaro para me guiar."
"Por quê?" perguntou-se.
"Porque esse pássaro não será comum... ele não terá olhos, e por isso, não confiará no que se vê. E ao não ver o caminho, saberá por onde ir."
E nada mais foi dito. O pássaro veio, e o guiou, sem olhos, por várias cidades e lugares e tempos e mundos.
Um dia, ele não conseguiu achar o pássaro.
"Onde está meu pássaro-guia?" ele se perguntou.
"No lugar certo, oras" respondeu "Não foi essa sua função? Ir ao lugar certo?"
"Mas..." ponderou "mas se ele está no lugar certo... e não está aqui comigo... estou eu no caminho errado?"
"Assim parece."
Balançando a cabeça, o viajante retomou sua viagem, um sorriso no rosto.
"Nããão... que tolice a minha... certo e errado são só pontos de vista. Eu devo estar no lugar certo, e o ele só está em um lugar diferente."
Sombrio, ele contrapôs:
"Mas, se assim é... por onde você andou todo esse tempo em que acreditava estar no lugar certo, guiado por um cego?"
Entre um passo e outro, ele hesitou. Voltou a andar.
Mas seu sorriso ficou para trás.