quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um conto que se conta.

Em um reino, havia um bardo.

Ele estudou, durante anos, em uma torre alta, cinzenta, sem segurança.

Em sua mente, ele estava lá de volta.

O bardo vivia entre mundos. Em cada passo de cada dia, ele via histórias. Elas falavam com ele, e traziam sorrisos aos seus lábios ou lágrimas a seus olhos.

O sorriso ele expunha, embora muitos o vissem como sério.

As lágrimas ele não se permitia mostrar, e por isso, às vezes, elas se recusavam, por despeito, de vir a ele.

Mas isso não vem ao caso.

No alto daquela torre, em sua mente, o bardo tinha uma visão que até então, e até mesmo então, era imaginada apenas.

Ele via a si mesmo, 38 metros abaixo.

O baque de sua queda ainda ecoava nos ouvidos daqueles que testemunharam.

Por um momento, ele estudou curioso o padrão que seu sangue e miolos desenhavam no chão ao redor. Pena que ninguém notaria. Ali estava uma fórmula matemática que a muito eludia várias gerações de cientistas.

Irônico, e apropriado. Um sentido extra a uma morte que tinha um propósito... uma mensagem a todo o reino, que outros bardos, em suas canções, em seus poemas, em suas crônicas haviam de gritar, em outros reinos, de outros reinos, até que este reino colorido de mentiras se tornasse ciente do que todos ao redor sabiam.

O bardo, em sua mente, olhou para o céu. Um erro.

Ao fazê-lo, ele caiu... para o lado de cima.

Rumo a um sorriso em um par de olhos bem conhecido, de uma vampira a quem ele dera seu amor.

O brilho do sol de uma praia que ele visitou poucas vezes chamou sua atenção. Era vermelho... mas de um tom que não era de sangue.

Ao redor dele, como pássaros em revoada, livros batiam suas capas e páginas, implorando para serem lidos uma vez ou de novo... as letras caíram deles como penas agitadas, e os ventos traziam música como um redemoinho.

Uma mulher que era três, acompanhada de três homens que eram um, vieram até o bardo, e disseram a ele que ele tinha vindo até eles e elas.

Sete chakras se abriram e uma canção explodiu. Um novo universo nasceu, e levou o bardo pela mão.

Havia muitas histórias a serem contadas ainda. Muitas a serem testemunhadas, e apenas ele o faria. Pois outros tinham suas próprias histórias.

O bardo olhou para baixo. Seu corpo morto depois do passo que veio da torre ainda estava lá. Mas essa era uma das histórias que ele contaria.

Não era a última ainda.

Clio sorria para o bardo, e o bardo, tristemente, sorriu de volta. Mas prometeu a ela um sorriso verdadeiro logo, e satisfeita, ela aceitou.

Nove irmãs dançaram. Memória e Vitória haviam salvo uma vida.

Histórias futuras, ainda não nascidas, suspiraram.

Histórias passadas, ainda aqui, se abraçaram.

Uma história, ainda não finda, continua.