quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dez, sete, 12

"...sim, mais de 8000." , disse o Homem.

O repórter segurava o gravador digital admirado. Diante dele, em um gigantesco latifúndio, mais de 8000 cabeças de gado pastavam, bovinamente.

Engordando.

Caminhando por aquele pequeno, cercado mundo de comida, sono e reprodução.

"Aqui que a mágica acontece", disse o Homem, orgulhoso.

Uma gigantesca fila se afunilava em direção ao abatedouro. Os animais entravam de cabeça baixa, um de cada vez. Um número marcado em suas cabeças. Um número que não fazia diferença para a grande maioria deles, senão para nenhum.

Eles olhavam, sem ver, o chão.

Um golpe.

Um animal morto.

E ninguém se importava com o número em sua cabeça.

O repórter não ouvia mais o Homem falando de como aqueles animais estúpidos entravam ali para morrer sem saber. "São só carne, né" dizia ele, sem notar que era ignorado.

O repórter não ouvia pois olhava para o antepenúltimo boi morto. O boi que olhara para ele, no momento do golpe. O boi que sabia que estava sendo abatido. O boi que morrera ciente de que nada podia fazer.

O despertador toca. O repórter acorda sobressaltado, e contempla os documentos sobre a escrivaninha. Toma um banho, esquece do sonho. Mais tarde, anos depois, ele lembraria daqueles olhos de boi onírico sacrificado.

Mas hoje, ele tinha apenas um número na cabeça, enquanto se dirigia para uma fila.

Com olhos baixos, em uma pequena tela, ele votou.