quinta-feira, 9 de maio de 2013

Corredor da Morte

O último condenado olhou para o corredor. Seus músculos faciais se contraíram, perto dos cantos da boca. Mas não o bastante. E o movimento involuntário se tornou forçado quando não chegou aos olhos.

Caminhou.

Em passos pequenos, limitados, pelas algemas em seus tornozelos, gêmeas das que continham seus pulsos.

Seus olhos, porém, ainda poderiam se  mover, se o pescoço não os acompanhasse. E mover-se foi o que eles fizeram. E viram. E umedeceram. Sem se contrair. Ele evitou piscar. Não queria lágrimas flanqueando seus lábios crispados.

Ele viu a Piada, encolhida no chão, como um feto abortado jogado no lixo.

Ele viu Chiste, batendo a cabeça na parede... pois esse era o único som que ainda lhe era permitido.

Ele viu Sarcasmo, com os lábios e pálpebras costurados.

Ele viu Trocadilho, mesmo que Trocadilho não o visse. Afinal, Trocadilho estava em uma cela de espelhos, onde tudo o que via, era a si mesmo. Literalmente.

Ele viu o Humor, definhando. Este não estava em uma cela. Este era esmagado. Censura era sua algoz.

Ele olhou para Censura. Ela olhou de volta. E o que ele viu nos lábios dela foi a vitória.

Chegando em sua cela, ele chorou, lembrando de Censura sorrindo para ele. Uma mão pousou em seu ombro.

Amargura, parece, era a única que ainda consolava o Riso.